sexta-feira, 23 de dezembro de 2011


VI

Stockholmo, 25 de outubro de 1898
(pgs 68-69)


Quanto a fabricar um animal, pede-lhe ao menos que te faça crescer um só cabello na tua calva prematura, porque em animal já essa idéa te tornou.

“Qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, accrescentar um côvado á sua altura?
Olhai para os lyrios dos campos, como elles crescem, não trabalham nem fiam, e Eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua gloria, se vestiu como qualquer delles.”

Meu caro, não esgotei o assumpto, porque elle não tem fim, mas confesso-me cansado de luctar contra a tua dura inércia, perguntando-me onde estava o outro mundo.

O outro mundo é a parte essencial de cada objecto que te cerca, e a parte essencial de nós mesmos é a parte imperecivel e eterna de todas as coisas existentes dentro de nós mesmos e dentro de cada coisa.

O outro mundo é o principio de todas as coisas e é a causal de todos os effeitos, emfim, o outro mundo é o mundo essencial e este é o mundo material que, como effeito, só póde existir como derimente da causa.

O outro mundo é o reino da verdade eterna, onde um dia nos encontraremos, si nos amarmos e nos repellirmos, si nos odiarmos. Recebe um abraço de amizade bem sincera, apezar do tom causticante das minhas arengas.
W.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

CARTAS PERDIDAS

VI

Stockholmo, 25 de outubro de 1898
(pgs 67-68)


Eu sou um illudido com sonhos vagos e queres acordar-me com a realidade, que só existe na mathematica e na chimica.

De accordo; em uma, a realidade conjectural, em outra a realidade material, o que não impede que exista a realidade espiritual.

Póde encobrir-se o sol com uma peneira, que elle não deixará de resplandecer, porque, para quem souber olhar para a sombra da peneira, verá mais uma prova de que o sol existe.

A chimica, dizes tu, já fez um grão de cereal e talvez chegue a fazer um animal!

Sim, ella fará um bago de trigo de fórma absolutamente egual, reunindo as matérias inertes que formam o seu corpo; esse bago produzirá farinha, essa farinha produzirá pão. . . mas lança-o á terra, e esses elementos que o compuzeram voltarão immediatamente ao seu primitivo estado.

Lança, agora, ao lado desse, um grão de trigo natural, verás então brotar da terra uma espiga cheia de vida, ostentando á luz e ao ar dezenas de grãos eguaes ao que enterraste.

Por que? Porque em um está simplesmente a materia inerte, em outro o principio vital, que existe em um gráo diverso, grão essencial, propriedade exclusiva do mundo espiritual, que, em linguagem vulgar, se chama o outro mundo, e, em linguagem piegas, o além.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

CARTAS PERDIDAS

VI

Stockholmo, 25 de outubro de 1898
(pgs 66-67)


Permitte-me agora que eu analyse a precisão infallivel dos teus sentidos, vamos a examinar o que elles têem de positivo, e, uma vez que, fora do espaço e do tempo, tudo é utopia, ajuda-me com a tua razão positiva a analysar qualquer coisa ponderadamente.

Por exemplo: a velocidade. É uma coisa que tu conheces perfeitamente, mórmente na parte relativa á lentidão.

Todos os dias gastas e percorres o espaço que vai do teu aposento ao restaurant um determinado tempo, com uma velocidade bem maior que a do kagado, mas incomparavelmente menor que a de uma bala, que o percorreria em pequenas fracções de segundo.

Ora, esta velocidade, já pouco apreciável para os teus infalliveis sentidos, é a mais pachorrenta lentidão, comparada com a velocidade da luz; mas quer a maxima velocidade ou a maior lentidão, poderemos continuar infinitamente a dividil-as ou a multiplical-as e, si todas as cartas que te tenho escripto viessem cheias de algarismos para enumerar o maximo da velocidade ou da lentidão, apenas teriam attingido uma insignificante parcella.

Ora, sendo isto uma verdade absoluta, eu peço encarecidamente aos teus delicados sentidos que apreciem quanto tempo um lentíssimo raio de luz levará a percorrer o caminho que medeia do teu quarto ao restaurant, e que tu dizes percorrer em dez minutos.

Fatalmente, levou algum tempo.

Mas si os teus sentidos, unico fiel regulador das tuas idéas, não puderem conceber tão insignificante velocidade, como poderão apreciar outros alguns trilhões de vezes maior? E desta fórma, quer á direita, quer á esquerda, de qualquer unidade, tu poderás eternamente accrescentar cifras, que nunca chegarás ao termo.

domingo, 4 de setembro de 2011

VI

Stockholmo, 25 de outubro de 1898
(pgs 65-66)

Si collocares um selvagem diante de um espelho, a primeira impressão que elle tem é que está vendo um outro homem absolutamente egual, porque a imagem apparente só differe da real em não ter vida própria, mas sim emprestada. Assim, o mundo natural é um reflexo e uma apparencia do mundo essencial. O mundo natural não tem vida própria, vive a expensas da que lhe empresta o mundo espiritual.
O corpo humano não tem vida própria, vive da que lhe empresta a alma.
Tudo isso é quase repisar o que tenho exposto nas outras cartas, mas tu costumas passar indifferente por todas as affirmativas, para só fixares o que melhor convenha ao teu dúbio estado de espirito.
O teu prazer consiste na duvida, sentes-te triste perante uma certeza.
Entre a escolha de dois alimentos preferes morrer de fome a decidir-te por um, mesmo que um fosse de lentilhas, de que tu tanto gostas.
Paciencia, a cegueira do entendimento é peor que a cegueira da vista.
Acaso o morcego acha a noite escura?
Si disseres a um ébrio que a embriaguez é uma allucinação transitória, mas que conduz à loucura, que é uma embriaguez permanente, vomitar-te-há um riso avinhado e dirá que nesse caso prefere ser louco !
Para elle o prazer existe na hedionda embriaguez.
Tira um porco do chiqueiro; emmagrece logo. Eis a razão de ser um pouco perigoso “atirar perolas a porcos”, porque se podem enfurecer e virar contra nós.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

VI

Stockholmo, 25 de outubro de 1898
(pgs 64-65)


Quantas vezes, ao acordar sobresaltados de um sonho de pesadelo, precisamos apalpar o leito, apalparmo-nos a nós mesmos, olhar bem em torno de nós, para nos convencermos de que estamos deitados e immoveis e, só depois dessa prova relativa, é que nos convencemos de que não estavamos acordados, porque essas sensações por que passamos dormindo eram tão nitidas e reaes, que nos parecem um sonho que fosse sonho. Si não fosse possivel verificar pela relatividade analytica a diferença entre o sonho e a vigília, essas luctas ou gosos, esses alimentos ou aromas, essas dôres physicas ou moraes, essas lagrimas que ainda perduram na vigília ou esses risos que ainda nos alegram ao acordar, todas essas scenas que se desenrolam com inexcedivel actividade durante a nossa immobilidade, ficariam na nossa imaginação como qualquer acto da nossa vida, tudo seria tomado como verdade absoluta.

De que serviu o corpo conservado absolutamente immovel e insensível durante toda essa scena?

As sensações percebidas tiveram a maxima intensidade. O frio foi frio, a sêde foi sêde; amamos e odiamos, soffrémos ou gosámos, tão real e perfeitamente como si estivessemos acordados.

Força de imaginação dirás. Mas nem tu, espirito que presume de pratico, estás livre disso; mesmo entre os que não se preoccupam com estas tolices, se dá o phenomeno com a mesma intensidade.

Por mais pratico e menos fantasista que seja o espirito, em nada diminue a sua intensidade.

Tanto sonha o philosopho como o mathematico, tanto o poeta como o rustico.
Queres saber que mundo é este em que nos mergulhamos no somno e que tanto riso te causa?

É o outro mundo. É o verdadeiro. O fantástico e o illusorio é este, tudo é illusão, o espaço relativo, em absoluto, não existe. O tempo, a mesma coisa. A materia? Divide-a até ao infinito e... arranja-me um átomo para eu me entreter a dividil-o.

sexta-feira, 17 de junho de 2011


VI

Stockholmo, 25 de outubro de 1898
(pgs 63-64)

Admittamos, pois, um mundo espiritual ou essencial como coisa necessaria e principio creador do mundo natural. Não foi este mundo que creou o outro; mas sim o outro que creou este.

Admittamos mais o homem como sêr espiritual e essencial, cujo desenvolvimento necessita do apoio da matéria em que se envolve até constituir a sua individualidade subjectiva.

Façamos como Copernico: em logar de nos collocarmos na peripheria para encarar o centro, colloquemo-nos no centro, onde convergem todos os raios da peripheria. Na peripheria tinhamos um só ponto e um só raio de luz, no centro receberemos todos os raios luminosos.

“O mundo espiritual contemplado da terra apercebe-se confusamente através o espelho da natureza; consideramol-o uma região obscura, vaga, sem realidade, um reino de silencio e trevas, habitado por fantasmas sem fórma”; mas, encarando o mundo essencial como verdadeiro, o gérmen de todos os idéaes, o foco de todos os amores, a sabedoria real da vontade e do entendimento.

Considerar que o mundo material vive exclusivamente desse mundo typo e substancial, cujos reflexos vagamente a terra exhibe, que o nosso é a sombra, o outro a realidade, que um é transitório e o outro permanente, que um é inerte e confuso, o outro luminoso e complexo, é transformar o sonho em realidade porque a idéa é tudo e a matéria, em ultima analyse, é um sonho.

Um sonho ! ! !

Mesmo sonhando na terra, nós podemos ter a noção de que o corpo material póde ser eliminado sem que as sensações as mais nitidas e intensas desappareçam.

domingo, 29 de maio de 2011

Cartas Perdidas

VI

Stockholmo, 25 de outubro de 1898
(pgs 62-63)

O absurdo, meu pobre amigo, é uma prova negativa; o contrario do absurdo é a verdade.
Ora, espiritualmente falando, a morte é um absurdo, porque a vida é eterna e infinita como o movimento.

A realidade está na alma, que continúa vivendo e que mantinha a vida apparente do corpo. Primeiro a causa, depois o effeito, primeiro a idéa, depois o acto, primeiro a essência, depois a matéria, primeiro os céeos, depois as terras, primeiro o mundo espiritual, depois o mundo natural.

Gilles affirma que o estado cahotico em que estava a astronomia antes de Copernico era devido simplesmente aos homens guiarem-se só pela relação enganadora dos sentidos; isto é, queriam descortinar a infinita ordem do Universo, collocando-se na terra, como unico ponto de referencia.

Copernico, abandonando pelo pensamento o pequeno planeta que habitava, collocou-se no sol e, no deslumbramento que á sua intelligencia abria a vastidão infinita do horizonte, poude descortinar que, até aquella época, tinha obliterado os sentidos, percebendo e discriminando que os movimentos do sol em torno da terra eram apparencias e que a verdade era que a terra gyrava sobre si mesma e em torno do sol.

Entretanto, depois desta verdade esclarecida, continuámos a expressar-nos conforme as apparencias, dizendo que o sol nasce ou se põe. E, quando um poeta moderno entoa canticos ao nascer do sol, ninguem se lembra de o chamar ignorante. É porque existe uma correspondência entre a apparencia e a realidade.

Assim encarando o problema do centro solar, fácil se torna descortinar a verdade na terra, emquanto que da terra só se via o erro do sol; emquanto persistirmos em encarar os problemas transcendentes, mergulhados nas idéas simplesmente materiaes, só encontraremos erros espirituaes; mas si acceitarmos como principio as verdades espirituaes, veremos tambem essas coisas reflectidas no mundo natural.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Cartas Perdidas

VI

Stockholmo, 25 de outubro de 1898
(pgs 60-61)

Meu caro F.

Bem longe estava eu de suppôr que ainda teria de repellir os golpes do teu sarcástico espirito, antes do teu annunciado regresso.

Nada respondendo, nem contestando, quanto á materia exposta, fazes pairar as tuas constantes duvidas sobre o que eu não escrevi e sobre o que eu deveria ter escripto.
É o eterno processo do sophisma com que sempre se armam os caracteres pouco sinceros.

Depois de eu ter falado na morte como principio de uma nova existencia, a tua sceptica curiosidade pergunta: “Como é que, depois de affirmar que só pela razão se devem acceitar as verdades, si ousa falar em uma outra vida que ninguem conhece, pois só a morte poderia transpôr ?”

Dizes mais: “que te conduzi pela mão ao limiar do mysterio e te abandonei, deixando-te bater desesperadamente á porta que nunca se abre”, que a doença observa-se, a velhice vê-se, a morte sente-se, e depois?: quatro taboas, alguns pregos, um pouco de cal e muita terra. E, sublinhando capciosamente as minhas palavras, dizes: É evidente que é preciso ser muito estupido para não se cogitar em similhante absurdo; mas é preciso ser também muito intelligente para tornar o absurdo racional, e que, apezar de toda a minha lógica, te vês obrigado a dizer credo quod est absurdum?
Será esta a unica maneira de creres em ti, visto seres um completo absurdo. Que terrivel indecisão intellectual! que covardia espiritual! Umas vezes sentes abrirem-se diante de ti “novos horizontes de verdade”, achando o élo que liga a cadeia do Universo”; outras te perdes na confusão das idéas, partindo do principio negativo sem a menor observação.

Umas vezes, “uma harmonia de luz te conduz o espirito a nova róta”; outras vezes “é em vão que procuras nas trevas do teu espirito o phanal guiador”... “Ou frio ou quente, porque o morno dá vontade de vomitar”.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Cartas Perdidas

V

Stockholmo, 25 de setembro de 1898

(pgs 59-60)


Essa esperança em breve se tornará realidade, porque a vida que constituiu, em uma progressiva ordem, aquelle corpo que agora definha, vai em breve abandonal-o á sua inércia, e esse corpo, cujo equilibrio era exclusivamente mantido pela energia vital, emanada do espirito, vai perder a effigie humana que lhe tinha sido imprimida e desfeito em pó, entra na circulação universal.

A morte é renascer para a eternidade.

No primeiro nascimento, abandona-se a placenta; no segundo, o corpo material.
Primeiro, o homem nasce no mundo natural, envolvendo-se no húmus necessário em que frutifiquem as fórmas do seu amor dominante; depois, nasce novamente para o mundo das causas ou essencial, onde eternamente fruirá a resultante desse amor que anteriormente constituiu e com o qual fórma a sua individualidade inconfundível, obtida pela sua livre vontade, confirmada pelo seu entendimento, conforme a liberdade que Deus imprimiu em toda a creatura humana.

Eis a razão por que eu não temo a morte, nem por mim, nem pelos que me são caros. Esse hórrido fantasma deixa-me completamente indifferente.

Esses tres pesadelos: a doença, a velhice e a morte, transformaram-se assim em tres arcanos que nos enchem de conformação, preparando-nos o caminho da paz, que só póde vir pela tranquillidade de espírito, e o espírito só poderá ficar tranquillo, quando esteja de posse da verdade.

As tuas perguntas, como vês, tiveram cabal resposta, e, sobre as outras duvidas que ainda te roem a alma, mandar-te-hei o remédio por este mesmo correio, isto é, um livro para estudares e meditares, emquanto não chega a occasião de, terminados ahi os teus negócios, podermos abraçar outra vez, e então, de viva voz, eu te indicarei o verdadeiro fio de Ariadne, que te conduzirá seguro pela tortuosa estrada da vida na terra.

Abraça-te cordialmente o teu velho amigo

W.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Cartas Perdidas

IV

Stockholmo, 25 de setembro de 1898

(pgs 57-58)

Não foi o corpo humano que produziu a vida, mas, sim, a essencia humana que se envolveu em uma vestimenta material para servir de humus ao desenvolvimento da semente espiritual.
O principio vital existente na semente paterna depoz a vida no seio maternal, que lhe vai fornecendo o envoltório necessário ao seu desenvolvimento, dispondo o vaso que conterá o futuro espirito humano, adaptando-se a fórma á sua imagem e similhança.
Quando o espírito humano chegou ao maior período do seu desenvolvimento, o corpo, ou o vaso que o contém, começa a declinar e, quando não póde mais servir para o seu aperfeiçoamento, larga-o por imprestável e inutil.
Então toda a parecença ou similhança que esse envolucro tinha com o espírito que o animava e cuja fórma mantinha, desvanece-se, torna-se em uma coisa horrenda, disforme e fetida, como para attestar que não era em si próprio que residia a fórma, mas sim na energia vital, que o tinha formado, que o mantinha e que, agora, não precisando delle, o abandona, entregando-o á podridão. É a isto que se chama a morte.
A maravilhosa harmonia do corpo humano, mantida durante tantos annos em admiravel ordem, renovando sem cessar o organismo, conservando sempre a mesma fórma, dando o brilho da intelligencia no olhar, a eloqüência na fala, a graça no gesto, o fogo no amor, esse sêr culminante da creação que ama ou odeia e cujo entendimento tenta escalar os mysterios da infinidade e da eternidade, esse sêr, o unico que sabe que existe, em um dado momento, torna-se em uma pasta putrida, informe e nojenta ! ! !
É mister ser muito estupido para não cogitar em similhante absurdo.
O macerado argumento que os materialistas empregam, é que ainda ninguem voltou do outro mundo para esclarecer o assumpto.
Mas, si alguem voltasse do outro mundo, deixaria de ser do outro, para ser deste! Coitados.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Cartas Perdidas

IV
Stockholmo, 25 de setembro de 1898
(pgs 55-57)

Outras illusões apparecem que julgamos sempre as ultimas e as melhores, depois outras, e assim successivamente, até ao ponto em que a meditação sobre os transitorios prazeres materiaes dá logar aos prazeres espirituaes, fonte única, inesgotavel e eterna, do verdadeiro bem e da verdadeira sabedoria.

À edade viril já tu chegaste, e pouco antes de partir para o Rio, tu me confessavas o tédio que te inspirava a vida dissoluta e perdularia que te tinha conduzido á situação em que te encontras, e cujo remédio consiste nessa propria reflexão.
Serve, pois, a velhice de cadinho onde os sentimentos se vão depurando do peso da materia, para então calmamente esperarmos a morte.

A morte! O ultimo pesadelo!

Quando um vaso já não póde comportar, pelo seu estado de deterioração, o conteúdo para que foi destinado, inutiliza-se ou quebra-se.

Quando a semente encontra os elementos em que a sua vida latente possa desenvolver a sua actividade, quebra o involucro que a continha, desprezando-o como casca inutil, e renasce para ostentar ao calor e á luz a sua vitalidade, offerecendo os frutos que em si encerram novas sementes, perpetuando eternamente a sua fórma.

Quando a larva, paralysada no casulo, se transforma em borboleta, rasga o involucro que a prendia e abandona-o, voltejando pelo espaço, á procura do néctar das flôres.
O vaso abandonado não foi feito por si proprio, mas por quem lhe conhecia o destino ou applicação.

Não foi o caroço que fez a semente, pois nada cresce da peripheria para o centro, mas, sim, do centro para a peripheria. Foi o nucleo ou principio activo da semente que fabricou o envoltorio para se abrigar.

Não foi o casulo que deu vida á borboleta, nem tampouco a larva, mas, sim, o principio vital que existia no ovulo, produziu a larva e a larva a borboleta.