
IV
Stockholmo, 25 de setembro de 1898
(pgs 58-59)
Como podem os sentidos corporaes, feitos de materia, entrar em relação directa com os sentidos espirituaes, feitos de pura essência?
É na essencia das coisas que reside a verdadeira fórma.
A densidade de um corpo ou a sua apparencia material e grosseira não é prova que indique nenhuma condição de actividade. Contrariamente, se observa que a energia material augmenta na razão directa da sua imponderabilidade. Colloque-se o ferro ao pé do calor, o ferro dissolve-se, transforma-se, o calor fica.
É no espirito que reside o sêr essencial. Era a sua actividade vital que mantinha a materia em equilibrado movimento para formar o corpo. Decorrido o periodo necessario para o seu desenvolvimento, o espirito retira-se.
Deixou a causa de existir no effeito; ficou um effeito sem causa, portanto, não póde mais subsistir, dissolveu-se. A subsistencia é uma perpetua existencia.
Ponhamos de parte os milhares de factos e experiencias observados por sábios illustres com coragem sufficiente para arrostar os preconceitos acadêmicos, que confirmam e provam a possibilidade de entrar em relação, em determinadas condições, com os seres espirituaes.
Si a morte fosse a cessação completa da nossa individualidade, deveria ser uma coisa atrozmente horrivel, teriamos então, pelos entes que nos são caros, uma dôr eterna, ou um esquecimento absoluto.
Mas todos que, por dever do officio ou de affeição, estão mais em contacto com os moribundos, são unanimes em affirmar que as agonias são em geral serenas e que o agonisante, conhecendo quasi sempre o seu estado, mesmo tendo sido em vida o maior descrente, conforma-se como si uma intuição da verdade ou uma intima voz lhe segredasse a esperança de uma outra existencia.