quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Cartas Perdidas

VI

Stockholmo, 5 de novembro de 1898
(pgs 70-71)

Ora, o estado a que pôde ser elevada a exaltação dos sentidos é quasi ilimitado.
Os sentidos são os orgãos ou os instrumentos de que o espirito humano se serve para entrar em relação com as coisas que o cercam no mundo natural. É, pois, a propria vida do homem que lhe imprime a actividade inicial para se formarem ou constituírem dos materiaes necessários, para que estejam em harmonia com o meio em que devem actuar e para que haja contiguidade e continuidade da causa espiritual com o effeito natural.

Portanto, os sentidos são meros meios de correspondencia. Por si sós, sem a vontade que queira e sem o entendimento que realize, seriam inertes.

Para nos certificarmos quanto á simples percepção, por meio dos sentidos vulgares, é grosseira, basta julgar as maravilhas que o microscopio nos descobre; e a prova de que só servem para discriminar apparencias, basta a illusão que o sol e a lua nos dão com a sua visita diaria.

Ora, como os sentidos só se exercitam no meio em que operam, é difficil perceber novas sensações quando intermittentes; e quando algumas dessas sensações menos vulgares impressionam os cerebros de escol, a clássica allucinação empolga-os logo no seu capello.

Si os peixes raciocinassem, não comprehenderiam a possibilidade de viver nas camadas atmosphericas, e, na profundidade dos mares, os peixes cathedraticos, analysando a disposição das guelras dos seus similhantes, rir-se-hiam dos peixes utopistas, que, viajando ousadamente pela superficie das águas, enxergassem fórmas movendo-se animadamente em um meio impossivel para a sua existencia. E os peixes positivistas das profundidades oceânicas expulsariam das suas academias esses fantasistas superficiaes.

Que percepção tão rigorosa teem os sentidos, que basta impôr-lhes uma forte suggestão para lhes obliterar por completo a sensação.

Entretanto, o desenvolvimento e a acuidade que o espirito humano lhe póde imprimir é ainda pouco conhecida, podendo attingir a tal sensibilidade, que dir-se-hia um novo sentido.