VI
Stockholmo, 30 de novembro de
1898
(pgs 79-80)
Dentre
a série de perguntas capciosas com que fechas a tua epistola, perguntas qual
saduceu, que logar reservo para as almas dos animaes?
É
realmente um dos pontos mais perturbadores do problema da immortalidade da
alma, a subsistencia dos animaes. Permitta-me, pois, algumas considerações
sobre o assumpto.
O
homem, domesticando os animaes, empresta-lhes uma apparencia illusoria,
transformando-lhes passageiramente os habitos e os costumes, obrigando-os pelo
medo, pela fome e pelo castigo, a executar inconscientemente actos que parecem
lhes dar fóros de intelligencia e raciocinio, e julga assim o homem
transformar-lhes a natureza; mas de que elle não cogita é de que, assim que
essa acção dominadora desapparece, elles voltam immediatamente á sua
integridade primitiva.
O
mais bem amestrado animal de hoje, é absolutamente egual em todas as suas
manifestações ao seu ascendente, que viveu ha milhares de annos, quando se
liberta dessa pressão artificial a que foi sujeito. E o homem, illudido pelo
resultado artificial obtido, enleva-se na propria obra, e custa-lhe admittir
que esse sêr vivente, cujas
qualidades apparentes lhe emprestou a força, fique privado de participar tambem
da immortalidade.
Em
primeiro lugar, existe uma profunda differença entre seres viventes, e viventes só.
O
Sêr existe pela unica razão de saber
que é.
O
Sêr é só proprio do homem, porque só
póde existir emanado da vontade consciente, guiado pelo entendimento e
esclarecido pela razão, formando assim uma entidade ternaria e completa.




