sexta-feira, 25 de março de 2011

Cartas Perdidas

V

Stockholmo, 25 de setembro de 1898

(pgs 59-60)


Essa esperança em breve se tornará realidade, porque a vida que constituiu, em uma progressiva ordem, aquelle corpo que agora definha, vai em breve abandonal-o á sua inércia, e esse corpo, cujo equilibrio era exclusivamente mantido pela energia vital, emanada do espirito, vai perder a effigie humana que lhe tinha sido imprimida e desfeito em pó, entra na circulação universal.

A morte é renascer para a eternidade.

No primeiro nascimento, abandona-se a placenta; no segundo, o corpo material.
Primeiro, o homem nasce no mundo natural, envolvendo-se no húmus necessário em que frutifiquem as fórmas do seu amor dominante; depois, nasce novamente para o mundo das causas ou essencial, onde eternamente fruirá a resultante desse amor que anteriormente constituiu e com o qual fórma a sua individualidade inconfundível, obtida pela sua livre vontade, confirmada pelo seu entendimento, conforme a liberdade que Deus imprimiu em toda a creatura humana.

Eis a razão por que eu não temo a morte, nem por mim, nem pelos que me são caros. Esse hórrido fantasma deixa-me completamente indifferente.

Esses tres pesadelos: a doença, a velhice e a morte, transformaram-se assim em tres arcanos que nos enchem de conformação, preparando-nos o caminho da paz, que só póde vir pela tranquillidade de espírito, e o espírito só poderá ficar tranquillo, quando esteja de posse da verdade.

As tuas perguntas, como vês, tiveram cabal resposta, e, sobre as outras duvidas que ainda te roem a alma, mandar-te-hei o remédio por este mesmo correio, isto é, um livro para estudares e meditares, emquanto não chega a occasião de, terminados ahi os teus negócios, podermos abraçar outra vez, e então, de viva voz, eu te indicarei o verdadeiro fio de Ariadne, que te conduzirá seguro pela tortuosa estrada da vida na terra.

Abraça-te cordialmente o teu velho amigo

W.