sábado, 8 de janeiro de 2011

Cartas Perdidas

IV
Stockholmo, 25 de setembro de 1898
(pgs 55-57)

Outras illusões apparecem que julgamos sempre as ultimas e as melhores, depois outras, e assim successivamente, até ao ponto em que a meditação sobre os transitorios prazeres materiaes dá logar aos prazeres espirituaes, fonte única, inesgotavel e eterna, do verdadeiro bem e da verdadeira sabedoria.

À edade viril já tu chegaste, e pouco antes de partir para o Rio, tu me confessavas o tédio que te inspirava a vida dissoluta e perdularia que te tinha conduzido á situação em que te encontras, e cujo remédio consiste nessa propria reflexão.
Serve, pois, a velhice de cadinho onde os sentimentos se vão depurando do peso da materia, para então calmamente esperarmos a morte.

A morte! O ultimo pesadelo!

Quando um vaso já não póde comportar, pelo seu estado de deterioração, o conteúdo para que foi destinado, inutiliza-se ou quebra-se.

Quando a semente encontra os elementos em que a sua vida latente possa desenvolver a sua actividade, quebra o involucro que a continha, desprezando-o como casca inutil, e renasce para ostentar ao calor e á luz a sua vitalidade, offerecendo os frutos que em si encerram novas sementes, perpetuando eternamente a sua fórma.

Quando a larva, paralysada no casulo, se transforma em borboleta, rasga o involucro que a prendia e abandona-o, voltejando pelo espaço, á procura do néctar das flôres.
O vaso abandonado não foi feito por si proprio, mas por quem lhe conhecia o destino ou applicação.

Não foi o caroço que fez a semente, pois nada cresce da peripheria para o centro, mas, sim, do centro para a peripheria. Foi o nucleo ou principio activo da semente que fabricou o envoltorio para se abrigar.

Não foi o casulo que deu vida á borboleta, nem tampouco a larva, mas, sim, o principio vital que existia no ovulo, produziu a larva e a larva a borboleta.

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