VI
Stockholmo, 5 de novembro
de 1898
(pgs 74-75)
E é esse estado singular do nosso sêr que nos faz sentir um mal estar
inexplicável ante a approximação de um perigo ou desgosto grave.
É elle que produz os presentimentos tantas vezes registrados, de acontecimentos
notáveis, é elle que imprime a previsão dos factos futuros.
Como definir uma percepção que jaz occulta pela sombra intensa que os
outros sentidos nella projectam?
Acaso é possível perscrutar o fraco gemido de um moribundo no meio do
ribombar do trovão? Entretanto, elle geme.
Quem poderá descortinar no meio dos espinhos e dos abrolhos a leve
margarida que se estiola por falta de luz? Lancem no fogo o mallo, e ella
ostentará, garbosa, os seus encantos.
Quem poderá divisar as estrellas no meio do esplendor solar? É mistér que
elle esconda o seu esplendor no manto sombrio que a terra lhe oppõe, para que
esses sóes tão distantes venham impressionar a nossa retina. Si o dia fosse
perpetuo, a vista humana desconheceria o universo estrellar, sem que, por isso,
ellas deixassem de existir aos milhões.
Assim, essas mais íntimas e subtis percepções dos sentidos espirituaes,
hoje quase obliterados pela brutalidade material, jazem latentes, prestes a
affirmar a sua existência quando as circumstancias as favoreçam; mas, como a
humanidade mergulha apenas nos prazeres corporaes, perdeu por completo o
conhecimento dessas percepções, e quando, por circumstancias que ella ignora, a
sua acção mysteriosa irrompe, inesperada, os alicerces da sciencia official
estremecem sempre, contentando-se os sábios com metter-lhes mais uma escora. E
o poeta, que subjectivamente vê e sente a fórma dos seus ardentes anhelos, e o
descobridor ou o inventor que formula, na exaltação das suas cogitações, o
gérmen das maravilhas futuras, é o vidente que prophetiza com inexplicável e
dolorosa anciedade o desastre, cujo turbilhão divisou. Emfim, o inspirado e
intuitivo julgam-se ludíbrios de allucinação e escondem cautelosamente esse
desvario.
