quarta-feira, 21 de setembro de 2011

CARTAS PERDIDAS

VI

Stockholmo, 25 de outubro de 1898
(pgs 66-67)


Permitte-me agora que eu analyse a precisão infallivel dos teus sentidos, vamos a examinar o que elles têem de positivo, e, uma vez que, fora do espaço e do tempo, tudo é utopia, ajuda-me com a tua razão positiva a analysar qualquer coisa ponderadamente.

Por exemplo: a velocidade. É uma coisa que tu conheces perfeitamente, mórmente na parte relativa á lentidão.

Todos os dias gastas e percorres o espaço que vai do teu aposento ao restaurant um determinado tempo, com uma velocidade bem maior que a do kagado, mas incomparavelmente menor que a de uma bala, que o percorreria em pequenas fracções de segundo.

Ora, esta velocidade, já pouco apreciável para os teus infalliveis sentidos, é a mais pachorrenta lentidão, comparada com a velocidade da luz; mas quer a maxima velocidade ou a maior lentidão, poderemos continuar infinitamente a dividil-as ou a multiplical-as e, si todas as cartas que te tenho escripto viessem cheias de algarismos para enumerar o maximo da velocidade ou da lentidão, apenas teriam attingido uma insignificante parcella.

Ora, sendo isto uma verdade absoluta, eu peço encarecidamente aos teus delicados sentidos que apreciem quanto tempo um lentíssimo raio de luz levará a percorrer o caminho que medeia do teu quarto ao restaurant, e que tu dizes percorrer em dez minutos.

Fatalmente, levou algum tempo.

Mas si os teus sentidos, unico fiel regulador das tuas idéas, não puderem conceber tão insignificante velocidade, como poderão apreciar outros alguns trilhões de vezes maior? E desta fórma, quer á direita, quer á esquerda, de qualquer unidade, tu poderás eternamente accrescentar cifras, que nunca chegarás ao termo.

domingo, 4 de setembro de 2011

VI

Stockholmo, 25 de outubro de 1898
(pgs 65-66)

Si collocares um selvagem diante de um espelho, a primeira impressão que elle tem é que está vendo um outro homem absolutamente egual, porque a imagem apparente só differe da real em não ter vida própria, mas sim emprestada. Assim, o mundo natural é um reflexo e uma apparencia do mundo essencial. O mundo natural não tem vida própria, vive a expensas da que lhe empresta o mundo espiritual.
O corpo humano não tem vida própria, vive da que lhe empresta a alma.
Tudo isso é quase repisar o que tenho exposto nas outras cartas, mas tu costumas passar indifferente por todas as affirmativas, para só fixares o que melhor convenha ao teu dúbio estado de espirito.
O teu prazer consiste na duvida, sentes-te triste perante uma certeza.
Entre a escolha de dois alimentos preferes morrer de fome a decidir-te por um, mesmo que um fosse de lentilhas, de que tu tanto gostas.
Paciencia, a cegueira do entendimento é peor que a cegueira da vista.
Acaso o morcego acha a noite escura?
Si disseres a um ébrio que a embriaguez é uma allucinação transitória, mas que conduz à loucura, que é uma embriaguez permanente, vomitar-te-há um riso avinhado e dirá que nesse caso prefere ser louco !
Para elle o prazer existe na hedionda embriaguez.
Tira um porco do chiqueiro; emmagrece logo. Eis a razão de ser um pouco perigoso “atirar perolas a porcos”, porque se podem enfurecer e virar contra nós.