VI
Stockholmo, 25 de outubro de 1898
(pgs 62-63)
O absurdo, meu pobre amigo, é uma prova negativa; o contrario do absurdo é a verdade.
Ora, espiritualmente falando, a morte é um absurdo, porque a vida é eterna e infinita como o movimento.
A realidade está na alma, que continúa vivendo e que mantinha a vida apparente do corpo. Primeiro a causa, depois o effeito, primeiro a idéa, depois o acto, primeiro a essência, depois a matéria, primeiro os céeos, depois as terras, primeiro o mundo espiritual, depois o mundo natural.
Gilles affirma que o estado cahotico em que estava a astronomia antes de Copernico era devido simplesmente aos homens guiarem-se só pela relação enganadora dos sentidos; isto é, queriam descortinar a infinita ordem do Universo, collocando-se na terra, como unico ponto de referencia.
Copernico, abandonando pelo pensamento o pequeno planeta que habitava, collocou-se no sol e, no deslumbramento que á sua intelligencia abria a vastidão infinita do horizonte, poude descortinar que, até aquella época, tinha obliterado os sentidos, percebendo e discriminando que os movimentos do sol em torno da terra eram apparencias e que a verdade era que a terra gyrava sobre si mesma e em torno do sol.
Entretanto, depois desta verdade esclarecida, continuámos a expressar-nos conforme as apparencias, dizendo que o sol nasce ou se põe. E, quando um poeta moderno entoa canticos ao nascer do sol, ninguem se lembra de o chamar ignorante. É porque existe uma correspondência entre a apparencia e a realidade.
Assim encarando o problema do centro solar, fácil se torna descortinar a verdade na terra, emquanto que da terra só se via o erro do sol; emquanto persistirmos em encarar os problemas transcendentes, mergulhados nas idéas simplesmente materiaes, só encontraremos erros espirituaes; mas si acceitarmos como principio as verdades espirituaes, veremos tambem essas coisas reflectidas no mundo natural.
domingo, 29 de maio de 2011
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Cartas Perdidas
VI
Stockholmo, 25 de outubro de 1898
(pgs 60-61)
Meu caro F.
Bem longe estava eu de suppôr que ainda teria de repellir os golpes do teu sarcástico espirito, antes do teu annunciado regresso.
Nada respondendo, nem contestando, quanto á materia exposta, fazes pairar as tuas constantes duvidas sobre o que eu não escrevi e sobre o que eu deveria ter escripto.
É o eterno processo do sophisma com que sempre se armam os caracteres pouco sinceros.
Depois de eu ter falado na morte como principio de uma nova existencia, a tua sceptica curiosidade pergunta: “Como é que, depois de affirmar que só pela razão se devem acceitar as verdades, si ousa falar em uma outra vida que ninguem conhece, pois só a morte poderia transpôr ?”
Dizes mais: “que te conduzi pela mão ao limiar do mysterio e te abandonei, deixando-te bater desesperadamente á porta que nunca se abre”, que a doença observa-se, a velhice vê-se, a morte sente-se, e depois?: quatro taboas, alguns pregos, um pouco de cal e muita terra. E, sublinhando capciosamente as minhas palavras, dizes: É evidente que é preciso ser muito estupido para não se cogitar em similhante absurdo; mas é preciso ser também muito intelligente para tornar o absurdo racional, e que, apezar de toda a minha lógica, te vês obrigado a dizer credo quod est absurdum?
Será esta a unica maneira de creres em ti, visto seres um completo absurdo. Que terrivel indecisão intellectual! que covardia espiritual! Umas vezes sentes abrirem-se diante de ti “novos horizontes de verdade”, achando o élo que liga a cadeia do Universo”; outras te perdes na confusão das idéas, partindo do principio negativo sem a menor observação.
Umas vezes, “uma harmonia de luz te conduz o espirito a nova róta”; outras vezes “é em vão que procuras nas trevas do teu espirito o phanal guiador”... “Ou frio ou quente, porque o morno dá vontade de vomitar”.
Stockholmo, 25 de outubro de 1898
(pgs 60-61)
Meu caro F.
Bem longe estava eu de suppôr que ainda teria de repellir os golpes do teu sarcástico espirito, antes do teu annunciado regresso.
Nada respondendo, nem contestando, quanto á materia exposta, fazes pairar as tuas constantes duvidas sobre o que eu não escrevi e sobre o que eu deveria ter escripto.
É o eterno processo do sophisma com que sempre se armam os caracteres pouco sinceros.
Depois de eu ter falado na morte como principio de uma nova existencia, a tua sceptica curiosidade pergunta: “Como é que, depois de affirmar que só pela razão se devem acceitar as verdades, si ousa falar em uma outra vida que ninguem conhece, pois só a morte poderia transpôr ?”
Dizes mais: “que te conduzi pela mão ao limiar do mysterio e te abandonei, deixando-te bater desesperadamente á porta que nunca se abre”, que a doença observa-se, a velhice vê-se, a morte sente-se, e depois?: quatro taboas, alguns pregos, um pouco de cal e muita terra. E, sublinhando capciosamente as minhas palavras, dizes: É evidente que é preciso ser muito estupido para não se cogitar em similhante absurdo; mas é preciso ser também muito intelligente para tornar o absurdo racional, e que, apezar de toda a minha lógica, te vês obrigado a dizer credo quod est absurdum?
Será esta a unica maneira de creres em ti, visto seres um completo absurdo. Que terrivel indecisão intellectual! que covardia espiritual! Umas vezes sentes abrirem-se diante de ti “novos horizontes de verdade”, achando o élo que liga a cadeia do Universo”; outras te perdes na confusão das idéas, partindo do principio negativo sem a menor observação.
Umas vezes, “uma harmonia de luz te conduz o espirito a nova róta”; outras vezes “é em vão que procuras nas trevas do teu espirito o phanal guiador”... “Ou frio ou quente, porque o morno dá vontade de vomitar”.
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