quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Cartas Perdidas


IV

Stockholmo, 25 de setembro de 1898

(pgs 58-59)

Como podem os sentidos corporaes, feitos de materia, entrar em relação directa com os sentidos espirituaes, feitos de pura essência?
É na essencia das coisas que reside a verdadeira fórma.
A densidade de um corpo ou a sua apparencia material e grosseira não é prova que indique nenhuma condição de actividade. Contrariamente, se observa que a energia material augmenta na razão directa da sua imponderabilidade. Colloque-se o ferro ao pé do calor, o ferro dissolve-se, transforma-se, o calor fica.
É no espirito que reside o sêr essencial. Era a sua actividade vital que mantinha a materia em equilibrado movimento para formar o corpo. Decorrido o periodo necessario para o seu desenvolvimento, o espirito retira-se.
Deixou a causa de existir no effeito; ficou um effeito sem causa, portanto, não póde mais subsistir, dissolveu-se. A subsistencia é uma perpetua existencia.
Ponhamos de parte os milhares de factos e experiencias observados por sábios illustres com coragem sufficiente para arrostar os preconceitos acadêmicos, que confirmam e provam a possibilidade de entrar em relação, em determinadas condições, com os seres espirituaes.
Si a morte fosse a cessação completa da nossa individualidade, deveria ser uma coisa atrozmente horrivel, teriamos então, pelos entes que nos são caros, uma dôr eterna, ou um esquecimento absoluto.
Mas todos que, por dever do officio ou de affeição, estão mais em contacto com os moribundos, são unanimes em affirmar que as agonias são em geral serenas e que o agonisante, conhecendo quasi sempre o seu estado, mesmo tendo sido em vida o maior descrente, conforma-se como si uma intuição da verdade ou uma intima voz lhe segredasse a esperança de uma outra existencia.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Cartas perdidas


IV


Stockholmo, 25 de setembro de 1898


(pgs 47-48)


Tu, como eu, como a grande maioria, finges falar á tua consciência, julgando-te perfeito e não te recordas de ter commetido acto nenhum degradante... Quem sabe de si, com medo da policia, ou medo que te conheçam e arranquem a mascara com que nos costumamos a cobrir; porque, si não fosse esse receio... Quantas canalhices não terias feito e quantas não estarias prompto a fazer, comtanto que ninguem visse...

Bem vês que, para tal freio, basta a policia.

Ninguem veja!!!

Eis já a negação do próprio sêr, porque nós mesmos somos alguém e temos obrigação de repelir intimamente em nós mesmos aquillo que condemnamos e repellimos nos outros.

É tão simples.

Não faças aos outros aquillo, que não queres que te façam a ti.

Eis aqui toda a sciencia do bem viver.

Meete uma das mãos na consciencia e dá cá a outra para um cordial aperto, mas, não apertes muito, porque está dorida de ter agora mesmo saído da consciencia propria.

Teu velho amigo


W.