VI
Stockholmo, 5 de novembro
de 1898
(pgs 75-76)
Em uma semente estão latentes as fórmas e as côres futuras da flôr, cuja
previsão do seu desenvolvimento póde ser feita adivinhando o periodo em que ella desabrochará com todas as suas
côres.
A semente de uma idéa ou de um facto deve conter latente a sua expressão
definida, pois que, sendo essa expressão o seu effeito sensível, tem fatalmente
de presumir-se uma causa geradora á qual se poderá chamar a semente idéal.
E assim, quando um sentido mais intenso possa, pela sua acuidade,
momentaneamente liberto do peso material, estudar nesse gérmen espiritual o seu
futuro desenvolvimento pela analogia derimente, a previsão de um facto futuro e
perfeitamente acceitavel, apezar de desconhecermos qual a percepção que nos
guiou, conduzida por esse sentido que existia latente no intimo do nosso sêr e
cuja clarividência é lançada á conta de coincidencia ou no abysmo do acaso.
Oh! doce milagre tão calumniado pelos sábios, tão exagerado pelos
supersticiosos e tão adulterado pelos charlatães, como o teu aspecto mysterioso
e sobrenatural se vai tornando tão simples e natural! E quando, por um estado
anormal do nosso corpo, o nosso sêr perscruta harmonias e vibrações
inacessiveis aos sentidos grosseiros, eu prefiro descortinar nestes phenomenos
a acção de sentidos novos, despertados do seu somno lethargico do que simples
manifestações de loucura; e prefiro ter de caminhar só, do que, na pessima
companhia das modernas escolas, taxar o genio de alienação e os grandes homens
de desequilibrados, por terem a nodoa de se não parecerem com os brutos
constantemente immersos nas sensações materiaes, que os animam, apenas
codificando leis sobre o que os outros criam, quando não destroem essa creação
no seu gérmen, tripudiando sobre Ella com as ferraduras technologicas.
Quarda-te bem dessas ferraduras, uma vez que não te pódes guardar das
massadas do teu amigo
W.
