sexta-feira, 6 de maio de 2011

Cartas Perdidas

VI

Stockholmo, 25 de outubro de 1898
(pgs 60-61)

Meu caro F.

Bem longe estava eu de suppôr que ainda teria de repellir os golpes do teu sarcástico espirito, antes do teu annunciado regresso.

Nada respondendo, nem contestando, quanto á materia exposta, fazes pairar as tuas constantes duvidas sobre o que eu não escrevi e sobre o que eu deveria ter escripto.
É o eterno processo do sophisma com que sempre se armam os caracteres pouco sinceros.

Depois de eu ter falado na morte como principio de uma nova existencia, a tua sceptica curiosidade pergunta: “Como é que, depois de affirmar que só pela razão se devem acceitar as verdades, si ousa falar em uma outra vida que ninguem conhece, pois só a morte poderia transpôr ?”

Dizes mais: “que te conduzi pela mão ao limiar do mysterio e te abandonei, deixando-te bater desesperadamente á porta que nunca se abre”, que a doença observa-se, a velhice vê-se, a morte sente-se, e depois?: quatro taboas, alguns pregos, um pouco de cal e muita terra. E, sublinhando capciosamente as minhas palavras, dizes: É evidente que é preciso ser muito estupido para não se cogitar em similhante absurdo; mas é preciso ser também muito intelligente para tornar o absurdo racional, e que, apezar de toda a minha lógica, te vês obrigado a dizer credo quod est absurdum?
Será esta a unica maneira de creres em ti, visto seres um completo absurdo. Que terrivel indecisão intellectual! que covardia espiritual! Umas vezes sentes abrirem-se diante de ti “novos horizontes de verdade”, achando o élo que liga a cadeia do Universo”; outras te perdes na confusão das idéas, partindo do principio negativo sem a menor observação.

Umas vezes, “uma harmonia de luz te conduz o espirito a nova róta”; outras vezes “é em vão que procuras nas trevas do teu espirito o phanal guiador”... “Ou frio ou quente, porque o morno dá vontade de vomitar”.

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