VI
Stockholmo, 25 de outubro de 1898
(pgs 66-67)
Permitte-me agora que eu analyse a precisão infallivel dos teus sentidos, vamos a examinar o que elles têem de positivo, e, uma vez que, fora do espaço e do tempo, tudo é utopia, ajuda-me com a tua razão positiva a analysar qualquer coisa ponderadamente.
Por exemplo: a velocidade. É uma coisa que tu conheces perfeitamente, mórmente na parte relativa á lentidão.
Todos os dias gastas e percorres o espaço que vai do teu aposento ao restaurant um determinado tempo, com uma velocidade bem maior que a do kagado, mas incomparavelmente menor que a de uma bala, que o percorreria em pequenas fracções de segundo.
Ora, esta velocidade, já pouco apreciável para os teus infalliveis sentidos, é a mais pachorrenta lentidão, comparada com a velocidade da luz; mas quer a maxima velocidade ou a maior lentidão, poderemos continuar infinitamente a dividil-as ou a multiplical-as e, si todas as cartas que te tenho escripto viessem cheias de algarismos para enumerar o maximo da velocidade ou da lentidão, apenas teriam attingido uma insignificante parcella.
Ora, sendo isto uma verdade absoluta, eu peço encarecidamente aos teus delicados sentidos que apreciem quanto tempo um lentíssimo raio de luz levará a percorrer o caminho que medeia do teu quarto ao restaurant, e que tu dizes percorrer em dez minutos.
Fatalmente, levou algum tempo.
Mas si os teus sentidos, unico fiel regulador das tuas idéas, não puderem conceber tão insignificante velocidade, como poderão apreciar outros alguns trilhões de vezes maior? E desta fórma, quer á direita, quer á esquerda, de qualquer unidade, tu poderás eternamente accrescentar cifras, que nunca chegarás ao termo.
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