
VI
Stockholmo, 5 de novembro de 1898
(pgs 72-73)
Quando vemos um cego guiando-se apenas pelo tacto, através do dedalo intrincado das ruas de uma cidade e dirigir-se, sem tropeçar, para onde o determina o seu desejo, faz-nos meditar quanto em nós esse sentido era grosseiro e que, apezar das trevas exteriores em que parece estar mergulhado, a serenidade quasi sempre alegre do seu rosto parece conformal-o com essa nova existencia, como si uma luz interna viesse substituir a que lhe falta, e ficaríamos abysmados ao saber que as suas sensações se tornam tão subtis, que as proprias vibrações luminosas das côres se lhe tornam sensíveis e o relevo da fórma tão impressionadora, que alguns têem sido estatuarios.
O exercicio constante que o orgão visual recebia, deixando de existir, derivou para o outro a sua actividade, demonstrando, então, qualidades até ali desconhecidas.
O tacto é o sentido esthetico de onde todos se derivam; é o principal e o mais espalhado pelo corpo todo. Desde a mais tenue fibra ao mais robusto membro, elle ensina, pelo prazer ou pela dôr, a apropriar-se ou afastar-se do que lhe é inútil ou desagradável. É esse o sentido que conduz á procreação, é elle que produz o gosto por cuja sensação alimentamos a constante elaboração material do nosso organismo.
São as ondas sonoras que, ferindo, pelo contacto, o nosso tympano, nos dão a idéa dos sons.
São os raios luminosos que, projectados contra a nossa retina, estabelecem, por seu contacto, a vibração da côr.
É o tacto o sentido que está directa e intimamente ligado á vontade do homem, cujas ordens recebe e cujas sensações transmitte; todos os outros sentidos lhe estão avassalados e, na escala hierachica, encontramos, no fim, a vista precedida pelo ouvido, que só tem relação com o entendimento, que é escravo da vontade.
É o tacto, esse sentido subtil que, existindo mesmo nas dobras mais reconditas do nosso organismo, estabelece essa rêde mysteriosa de nervos, como que servindo de induzido ás correntes externas, transformando-as em intensas sensações e collectando-as no cerebro.