quarta-feira, 26 de setembro de 2012


VI

Stockholmo, 30 de novembro de 1898
(pgs 77-78)

Meu caro F. (1)

Através das phrases da tua ultima carta, distilla-se hypocritamente uma commiseração pelo meu estado morbido, morbidez prenunciadora do mysticismo em que eu facilmente me precipitarei, continuando a enveredar por tão transcendente caminho philosophico; e o ponto final com que fechas esta insinuação parece uma lagrima negra em signal de luto pela perda da minha lucidez.

Não é de hoje que me conheces. Sabes perfeitamente que em toda a minha vida me tenho dedicado sempre ás sciencias exactas.

Habituado a reduzir tudo a formulas, tive sempre o mais profundo respeito pela álgebra, mesmo quando essa sciencia precisava da hypothese como principio para poder basear-se no incommesuravel como fim.

Conservo ainda a mais subida consideração pelas definições dogmaticas que se baseiam em um principio indefinido, e tenho sempre prompto para citar uma força qualquer, afim de dar começo a qualquer phenomeno, guardando o maior segredo sobre o logar onde Ella se acoita.

Si, por acaso, essa força já está gasta ou fóra da moda, aproprio-me então de algumas fracções de energia, extrahidas da infinita e commoda fonte etherea e, armado com todo este arsenal de vibrações e ondulações, não ha mysterio que fique por desvendar... menos o mysterio desses elementos básicos, cujo segredo convém guardar para honra das corporações scientificas a que me desvaneço de pertencer.

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(1) A traducção desta carta tornou-se bastante difficil e incompleta, não só pelo pessimo estado em que Ella se encontra, já meio apagada pela humidade e com as ultimas paginas dilaceradas, como também por estar escripta em uma technologia especial, para a qual não encontro traducção apropriada. Contém, além disso uma estranha theoria, bastante complicada para os meus fracos recursos scientificos, em que o singular auctor prova que os numeros representam idéas concretas, propõe-se a explicar os numeros encontrados nos Livros Sagrados, inclusivamente o Apocalypse, affirmando que não representam quantidades, mas sim qualidades. O desenvolvimento destes árduos problemas deveriam encontrar-se nas paginas dilaceradas, cujas rasuras não me foi ainda possivel preencher. – N. do Traductor.