domingo, 4 de setembro de 2011

VI

Stockholmo, 25 de outubro de 1898
(pgs 65-66)

Si collocares um selvagem diante de um espelho, a primeira impressão que elle tem é que está vendo um outro homem absolutamente egual, porque a imagem apparente só differe da real em não ter vida própria, mas sim emprestada. Assim, o mundo natural é um reflexo e uma apparencia do mundo essencial. O mundo natural não tem vida própria, vive a expensas da que lhe empresta o mundo espiritual.
O corpo humano não tem vida própria, vive da que lhe empresta a alma.
Tudo isso é quase repisar o que tenho exposto nas outras cartas, mas tu costumas passar indifferente por todas as affirmativas, para só fixares o que melhor convenha ao teu dúbio estado de espirito.
O teu prazer consiste na duvida, sentes-te triste perante uma certeza.
Entre a escolha de dois alimentos preferes morrer de fome a decidir-te por um, mesmo que um fosse de lentilhas, de que tu tanto gostas.
Paciencia, a cegueira do entendimento é peor que a cegueira da vista.
Acaso o morcego acha a noite escura?
Si disseres a um ébrio que a embriaguez é uma allucinação transitória, mas que conduz à loucura, que é uma embriaguez permanente, vomitar-te-há um riso avinhado e dirá que nesse caso prefere ser louco !
Para elle o prazer existe na hedionda embriaguez.
Tira um porco do chiqueiro; emmagrece logo. Eis a razão de ser um pouco perigoso “atirar perolas a porcos”, porque se podem enfurecer e virar contra nós.

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