VI
Stockholmo, 25 de outubro de 1898
(pgs 64-65)
Quantas vezes, ao acordar sobresaltados de um sonho de pesadelo, precisamos apalpar o leito, apalparmo-nos a nós mesmos, olhar bem em torno de nós, para nos convencermos de que estamos deitados e immoveis e, só depois dessa prova relativa, é que nos convencemos de que não estavamos acordados, porque essas sensações por que passamos dormindo eram tão nitidas e reaes, que nos parecem um sonho que fosse sonho. Si não fosse possivel verificar pela relatividade analytica a diferença entre o sonho e a vigília, essas luctas ou gosos, esses alimentos ou aromas, essas dôres physicas ou moraes, essas lagrimas que ainda perduram na vigília ou esses risos que ainda nos alegram ao acordar, todas essas scenas que se desenrolam com inexcedivel actividade durante a nossa immobilidade, ficariam na nossa imaginação como qualquer acto da nossa vida, tudo seria tomado como verdade absoluta.
De que serviu o corpo conservado absolutamente immovel e insensível durante toda essa scena?
As sensações percebidas tiveram a maxima intensidade. O frio foi frio, a sêde foi sêde; amamos e odiamos, soffrémos ou gosámos, tão real e perfeitamente como si estivessemos acordados.
Força de imaginação dirás. Mas nem tu, espirito que presume de pratico, estás livre disso; mesmo entre os que não se preoccupam com estas tolices, se dá o phenomeno com a mesma intensidade.
Por mais pratico e menos fantasista que seja o espirito, em nada diminue a sua intensidade.
Tanto sonha o philosopho como o mathematico, tanto o poeta como o rustico.
Queres saber que mundo é este em que nos mergulhamos no somno e que tanto riso te causa?
É o outro mundo. É o verdadeiro. O fantástico e o illusorio é este, tudo é illusão, o espaço relativo, em absoluto, não existe. O tempo, a mesma coisa. A materia? Divide-a até ao infinito e... arranja-me um átomo para eu me entreter a dividil-o.
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
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