quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Cartas Perdidas

VI

Stockholmo, 5 de novembro de 1898
(pgs 69-70)

P. S. – Ha uma phrase que, apezar de sublinhada, me ia passando despercebida e que, ao reler a tua carta, me saltou diante da vista como uma cabriola de gnomo. Eil-a: “Acho, em todo caso, curioso o teu cauteloso silencio ao passar perto dos milagres”.

Quebrarei esse silencio que tanto te incommoda.

Em primeiro logar, é preciso partir do principio que os livros que nelles falam só tratam de questões espirituaes, representadas por correspondencias naturaes; são, portanto, a maior parte delles os representativos de que a fé transpõe todos os obstáculos. Ainda hoje, a sciencia, armada com todo o seu arsenal, estaca em face de coisas, cujo sentido lhe passa fóra do alcance. Que conhecimentos integraes tem a sciencia, do valor absoluto dos sentidos, unico estalão por que Ella póde medir a veracidade dos factos?

Acreditar sem maior exame que todos os martyres judeus e christãos, todos os sabios e letrados que acceitam esses factos eram e são meros ludibrios de lendas e fabulas tão inhabilmente urdidas, não será conclusão gratuita?

Uma sciencia que ignora o que é a materia, que ignora o que é vida, o calor, a luz, a electricidade, emfim, que apenas lhe conhece os effeitos, que direito tem de negar esses factos que não conhece, quando acceita outros que desconhece?

Não se curam ainda hoje doenças por acção de uma fé intensa ou de uma violenta suggestão?

As doenças em que geralmente falavam os livros sagrados referiam-se ás enfermidades espirituaes. A fé no espirito divino curava as almas, e como as doenças do corpo são sempre resultantes de vícios moraes, o estado de exaltação dos sentidos, creado pelo amor divino, tornava immediato o phenomeno.