domingo, 29 de maio de 2011

Cartas Perdidas

VI

Stockholmo, 25 de outubro de 1898
(pgs 62-63)

O absurdo, meu pobre amigo, é uma prova negativa; o contrario do absurdo é a verdade.
Ora, espiritualmente falando, a morte é um absurdo, porque a vida é eterna e infinita como o movimento.

A realidade está na alma, que continúa vivendo e que mantinha a vida apparente do corpo. Primeiro a causa, depois o effeito, primeiro a idéa, depois o acto, primeiro a essência, depois a matéria, primeiro os céeos, depois as terras, primeiro o mundo espiritual, depois o mundo natural.

Gilles affirma que o estado cahotico em que estava a astronomia antes de Copernico era devido simplesmente aos homens guiarem-se só pela relação enganadora dos sentidos; isto é, queriam descortinar a infinita ordem do Universo, collocando-se na terra, como unico ponto de referencia.

Copernico, abandonando pelo pensamento o pequeno planeta que habitava, collocou-se no sol e, no deslumbramento que á sua intelligencia abria a vastidão infinita do horizonte, poude descortinar que, até aquella época, tinha obliterado os sentidos, percebendo e discriminando que os movimentos do sol em torno da terra eram apparencias e que a verdade era que a terra gyrava sobre si mesma e em torno do sol.

Entretanto, depois desta verdade esclarecida, continuámos a expressar-nos conforme as apparencias, dizendo que o sol nasce ou se põe. E, quando um poeta moderno entoa canticos ao nascer do sol, ninguem se lembra de o chamar ignorante. É porque existe uma correspondência entre a apparencia e a realidade.

Assim encarando o problema do centro solar, fácil se torna descortinar a verdade na terra, emquanto que da terra só se via o erro do sol; emquanto persistirmos em encarar os problemas transcendentes, mergulhados nas idéas simplesmente materiaes, só encontraremos erros espirituaes; mas si acceitarmos como principio as verdades espirituaes, veremos tambem essas coisas reflectidas no mundo natural.

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