sábado, 20 de outubro de 2012




VI

Stockholmo, 30 de novembro de 1898
(pgs 79-80)

Dentre a série de perguntas capciosas com que fechas a tua epistola, perguntas qual saduceu, que logar reservo para as almas dos animaes?

É realmente um dos pontos mais perturbadores do problema da immortalidade da alma, a subsistencia dos animaes. Permitta-me, pois, algumas considerações sobre o assumpto.

O homem, domesticando os animaes, empresta-lhes uma apparencia illusoria, transformando-lhes passageiramente os habitos e os costumes, obrigando-os pelo medo, pela fome e pelo castigo, a executar inconscientemente actos que parecem lhes dar fóros de intelligencia e raciocinio, e julga assim o homem transformar-lhes a natureza; mas de que elle não cogita é de que, assim que essa acção dominadora desapparece, elles voltam immediatamente á sua integridade primitiva.

O mais bem amestrado animal de hoje, é absolutamente egual em todas as suas manifestações ao seu ascendente, que viveu ha milhares de annos, quando se liberta dessa pressão artificial a que foi sujeito. E o homem, illudido pelo resultado artificial obtido, enleva-se na propria obra, e custa-lhe admittir que esse sêr vivente, cujas qualidades apparentes lhe emprestou a força, fique privado de participar tambem da immortalidade.

Em primeiro lugar, existe uma profunda differença entre seres viventes, e viventes só.

O Sêr existe pela unica razão de saber que é.

O Sêr é só proprio do homem, porque só póde existir emanado da vontade consciente, guiado pelo entendimento e esclarecido pela razão, formando assim uma entidade ternaria e completa.

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