VI
Stockholmo, 30 de novembro de
1898
(pgs 77-78)
Meu caro F. (1)
Através das phrases da tua ultima carta, distilla-se
hypocritamente uma commiseração pelo meu estado morbido, morbidez prenunciadora
do mysticismo em que eu facilmente me precipitarei, continuando a enveredar por
tão transcendente caminho philosophico; e o ponto final com que fechas esta
insinuação parece uma lagrima negra em signal de luto pela perda da minha
lucidez.
Não é de hoje que me conheces. Sabes perfeitamente
que em toda a minha vida me tenho dedicado sempre ás sciencias exactas.
Habituado a reduzir tudo a formulas, tive sempre o
mais profundo respeito pela álgebra, mesmo quando essa sciencia precisava da
hypothese como principio para poder basear-se no incommesuravel como fim.
Conservo ainda a mais subida consideração pelas
definições dogmaticas que se baseiam em um principio indefinido, e tenho sempre
prompto para citar uma força
qualquer, afim de dar começo a qualquer phenomeno, guardando o maior segredo
sobre o logar onde Ella se acoita.
Si, por acaso, essa força já está gasta ou fóra da
moda, aproprio-me então de algumas fracções de energia, extrahidas da infinita
e commoda fonte etherea e, armado com todo este arsenal de vibrações e ondulações,
não ha mysterio que fique por desvendar... menos o mysterio desses elementos
básicos, cujo segredo convém guardar para honra das corporações scientificas a
que me desvaneço de pertencer.
___________
(1) A
traducção desta carta tornou-se bastante difficil e incompleta, não só pelo
pessimo estado em que Ella se encontra, já meio apagada pela humidade e com as
ultimas paginas dilaceradas, como também por estar escripta em uma technologia
especial, para a qual não encontro traducção apropriada. Contém, além disso uma
estranha theoria, bastante complicada para os meus fracos recursos
scientificos, em que o singular auctor prova que os numeros representam idéas concretas, propõe-se a
explicar os numeros encontrados nos Livros Sagrados, inclusivamente o Apocalypse,
affirmando que não representam quantidades, mas sim qualidades. O
desenvolvimento destes árduos problemas deveriam encontrar-se nas paginas
dilaceradas, cujas rasuras não me foi ainda possivel preencher. – N. do Traductor.

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