segunda-feira, 14 de maio de 2012


VI
Stockholmo, 5 de novembro de 1898
(pgs 74-75)



E é esse estado singular do nosso sêr que nos faz sentir um mal estar inexplicável ante a approximação de um perigo ou desgosto grave.

É elle que produz os presentimentos tantas vezes registrados, de acontecimentos notáveis, é elle que imprime a previsão dos factos futuros.

Como definir uma percepção que jaz occulta pela sombra intensa que os outros sentidos nella projectam?

Acaso é possível perscrutar o fraco gemido de um moribundo no meio do ribombar do trovão? Entretanto, elle geme.

Quem poderá descortinar no meio dos espinhos e dos abrolhos a leve margarida que se estiola por falta de luz? Lancem no fogo o mallo, e ella ostentará, garbosa, os seus encantos.

Quem poderá divisar as estrellas no meio do esplendor solar? É mistér que elle esconda o seu esplendor no manto sombrio que a terra lhe oppõe, para que esses sóes tão distantes venham impressionar a nossa retina. Si o dia fosse perpetuo, a vista humana desconheceria o universo estrellar, sem que, por isso, ellas deixassem de existir aos milhões.

Assim, essas mais íntimas e subtis percepções dos sentidos espirituaes, hoje quase obliterados pela brutalidade material, jazem latentes, prestes a affirmar a sua existência quando as circumstancias as favoreçam; mas, como a humanidade mergulha apenas nos prazeres corporaes, perdeu por completo o conhecimento dessas percepções, e quando, por circumstancias que ella ignora, a sua acção mysteriosa irrompe, inesperada, os alicerces da sciencia official estremecem sempre, contentando-se os sábios com metter-lhes mais uma escora. E o poeta, que subjectivamente vê e sente a fórma dos seus ardentes anhelos, e o descobridor ou o inventor que formula, na exaltação das suas cogitações, o gérmen das maravilhas futuras, é o vidente que prophetiza com inexplicável e dolorosa anciedade o desastre, cujo turbilhão divisou. Emfim, o inspirado e intuitivo julgam-se ludíbrios de allucinação e escondem cautelosamente esse desvario.


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