MAIO DE 2009
Meu caro F...
As ponderações que fazes á minha terceira carta são proprias de um espirito avido no comprehender, mas parco no meditar.
Admittes já a possibilidade de abstrahir espiritualmente o espaço e o tempo, encontras mesmo novos horizontes a descortinar, tens até uma phrase, dizendo que presentes nesta nova sciencia “o élo até agora em vão procurado, que liga e encadeia as idéas de tal fórma, que o acaso e a duvida desapparecerão abraçados ao nada”; mas a tal harmoniosa ordem que eu encontro em tudo, vel-a tu “muito desafinada com a intrusão constante do mal” e terminas perguntando:
Para que creou Deus o mal?
Felizmente, contentas-te em criticar o facto e não chegas à ignominia de clamar com muitos: “Si eu fosse Deus, teria creado uma humanidade em que o mal fosse desconhecido”.
É o problema do mal que te preocupa, sendo o problema mais simples que existe.
Si essa série de pedantes que assim clamam fossem deuses, seriam simplesmente creadores de... inercia, porque a inercia espiritual, de que são formados, só reproduziria como imagem e similhança á propria inercia.
A razão, esse sopro de vida que Deus deu ao homem, só livremente póde existir.
A razão coagida seria a cegueira da obediencia.
A creação de uma humanidade sem vontade livre seria uma humanidade irracional.
Deus, sendo o infinito amor e a infinita sabedoria, é tambem a infinita razão e, portanto, infinitamente livre, logicamente se segue que, creando Deus o homem à sua imagem e similhança, lhe deu tambem a liberdade.
É nessa liberdade que residem o merito e o demerito das acções. É essa liberdade que te ditou a absurda pergunta.
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